quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A PRISÃO DA EDUCAÇÃO

Compartilho com vocês mais um texto de um amigo que acompanha de perto todo esse universo paralelo. Vale e muito a reflexão. O que vem sendo feito à longo prazo? Na verdade só sofremos com o resultado final de tudo isso. 

Começo esse texto parafraseando com um dos grandes pensadores do império romano, que inspirou o desenvolvimento da tragédia e da dramaturgia européia “Sêneca” que dizia: "a leitura nutre a inteligência”, trazendo para os dias de hoje, as crianças precisam de leitura, mas também precisam nutrir seus corpos esguios e maltratados pela fome, muitas vezes degradados desde nascituros pelas drogas consumidas por sua genitora, e ao virem ao mundo se deparam com o ciclo de violência incrustado na sociedade que são obrigados a conviverem, para eles os estampidos, ou sangue derramado nas vielas de barro batido, fazem parte de um espetáculo macabro, que tem cada vez mais telespectadores, e perfaz da rotina diária dos que vivem à margem da sociedade.

Quando começa a andar, essa criança tem duas obrigações a fazer: correr da violência, e andar aos semáforos para se tornarem pedintes. Quando não são obrigados a venderem seus corpos para se alimentarem, ou para alimentar os cartéis de drogas existentes, e que a sociedade teima em fingir que não existe, até que algum ente querido seja vitimado por esse mal moderno, e os “formadores de opinião” achem desculpas para os” coitados” e culpem  os “marginais” por destruírem seu lares.

Como cobrar que essas crianças, não potencializem a violência, se na grande maioria dos casos, o programa dominical destas é,  visitar parentes, que se encontram segregados nas penitenciárias, e que o exemplo visto por elas nesses “passeios”, e a prova cabal da falência do Estado. Que desde bebês tem suas fraldas revistadas, e aprendem que os agentes aplicadores da lei são seus inimigos, pois “afastam” os seus familiares, e ainda os mantêm presos. Ao contrário de outrora em que esses mesmos agentes eram vistos como exemplos de conduta ilibada e eram exemplos a serem seguidos, mas hoje são vistos como inimigos diretos e causadores dos principais males vividos por elas.

E por pior que pareça eles tem uma “esperança” nas visitas, pois os parentes que antes tinham que lutar igual a eles para se alimentar, se esconder para permanecerem vivos, e tinham o estudo como utopia, hoje por mais incrível que seja, tem direito às “refeições diárias”, tem a segurança como obrigação  estatal, e pasmem são alfabetizados, ou seja, para muitos que se encontram nos “calabouços”, a vida dentro do cárcere pode ser “melhor” do quê fora deles, pois os direitos previstos na CF, muitas vezes é mais fácil ser cumpridos na prisão do que fora dela.

Por esse motivo, a violência segue numa escalada gigantesca, pois há uma inversão de valores sociais da base familiar para aqueles que vivem escondidos dentro dos “bunkers”, que são criados a cada dia, dentro da nossa sociedade, os bandidos são cada vez mais popularizados e endeusados, a cada dia aparece mais um  “pixote”, um “Lucio Flávio” ou até mesmo uma “lili carabina”, seja qual for o nome que se dê, ser bandido onde a falta do Estado é crônica, e sinônimo de status, por esse motivo cada vez mais pré púberes se iniciam na criminalidade, seja pela inépcia das leis, seja por complacência estatal.

Por que, não se obriga as prefeituras, Estado ou união, a alfabetizarem as suas crianças, por que a sociedade não deixa de dar essa prova cabal de sua incompetência ao fazer daqueles que seriam o nosso futuro experimentarem cada vez mais cedo o fel da discriminação e do descaso, por que não deixamos de empurrar o nosso futuro para os cemitérios ou nosocômios, por que não assumimos a nossa culpa, e tentamos trazer, saúde, educação, lazer e segurança para nossas crianças, e com isso impedimos que eles se tornem nossos futuros “clientes” nos presídios.

Espero que cada um de nós ao olharmos para as nossas famílias possamos  ter a sensação de dever cumprido, para conosco e com a sociedade em que vivemos, pois aqueles que nós fechamos os olhos para não enxergarmos hoje, pode ser uma  parte triste da nossa história amanhã, como algozes dos nossos entes queridos, ou como uma nódoa que mancha de forma irretratável as nossas vestes carnais, e que se locupletam do descaso de outrora.

Por: VITOR GOMES

Bacharel de Direito, Pós Graduado em Política e Estratégia e Agente Penitenciário do    Estado de Alagoas.

6 comentários:

  1. Pura verdade...é preciso parar de ofuscar a realidade da nossa sociedade brasileira.Parabéns pela expansiva abordagem deste texto.

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  2. A omissão estatal que deixa os menores de hoje a mercê das escolas da marginalidade, faz com que os mesmos se potencializem como tais e se tornem nossos futuros clientes.Texto Excelente. Com autoria de quem conhece de perto o sistema prisional. Parabéns.

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  3. Ótimo texto e bela visão daquilo que a sociedade teima à esconder e tenta não vê,infelizmente enquanto nada for feito lá na raiz do problema a tendência é piorar,Parabéns mais uma vez ao autor do texto

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  4. Coincidência, estou em curso de formação pela segunda vez e muitos dos temas abordados nas diversas matérias apontam a ausência do Estado na formação primária básica de nossas crianças e adolescentes. Tratar a violência com repressão só fará aumentar o tempo e distância do objetivo maior que é de uma sociedade austera, com garantias socias e no final de tudo, menos violenta. Ainda cabe dizer que toda mudança parte do cidadão, que tem a maior das armas na ponta dos dedos: o voto!

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  5. Parabenizo ao AUTOR DO TEXTO, pelo seu conhecimento e pela forma de enfatizar tão bem a realidade da Sociedade e Estado. Ressalto a todos os que leram e cometeram a importância em divulgarmos este texto, pois é preciso que estas palavras sejam degustadas por todos, precisamos fazer a nossa parte, gritar, falar e tentar que todos os Governares e familiares mudem esta realidade que nos atormenta. As crianças do nosso País merecem uma chance e nos somos responsáveis por isso.

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  6. Ótimo texto. Realmente... Descreve de uma forma que nos leva a refletir sobre a culpa que existe em cada um de nós e sobre a falência do Estado perante a omissão de toda população.

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